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| Darling não pode circular pelos estabelecimento |
Um
cão-guia foi barrado no Hiper Condor Nilo Peçanha, em Curitiba, no último
sábado (11). Daiane Correa, publicitária e estudante do terceiro ano de Direito
da Univalli, em Balneário Camboriú, – que não tem deficiência visual – é
voluntária do Instituto Federal Catarinense (IFC) no “Projeto Cães-Guia”, que
cuida da socialização e treinamento de cães para guiarem pessoas com
deficiência. Daiane chegou a registrar um Boletim de Ocorrência.
Ela
foi informada pelo gerente do estabelecimento que “normas internas” impediam o
cão de circular entre as gôndolas. Segundo a publicitária, o funcionário da
rede se dispôs a cuidar do cão enquanto ela fazia as compras e alegou que o
animal poderia constranger outros clientes.
De
acordo com Daiane, é papel do socializador voluntário levar o cão (no caso, uma
cadela, Darling) a lugares públicos para facilitar a adaptação do animal a
situações corriqueiras da vida do guia e do guiado. Ela relatou, inclusive, que
costuma andar com Darling em lugares públicos (supermercados, praças e até
mesmo um hospital), de Curitiba e Balneário Camboriú, sem nunca ter sido
interpelada. A publicitária chegou a apresentar a carteirinha que a identifica
como voluntária do Instituto, leu em voz alta o decreto federal Nº 5.904, de 21
de setembro de 2006 – que regulamenta o ingresso e a permanência de cão em fase
de socialização ou treinamento em todos os locais públicos ou privados de uso
coletivo –, gravou um áudio com as negativas da gerência do Condor, alegou que
isso poderia render uma multa ao estabelecimento e mesmo assim não conseguiu
entrar com a cadela no local.
O
Paraná tem legislação específica sobre o tema. O Estatuto da Pessoa com
Deficiência do Estado, de janeiro de 2015, assegura na seção XIII, Art. 203, “à
pessoa com deficiência visual usuária de cão-guia, bem como treinador ou ao
acompanhante habilitado, o direito de ingressar e permanecer com o animal em
qualquer local aberto ao público ou utilizado pelo público, gratuitamente ou
mediante pagamento de ingresso, no Estado do Paraná”.
Darling
é uma mistura de Labrador com Golden Retriver, tem cerca de sete meses, e é uma
das 31 “cães-cadelas-guia” da segunda turma desse projeto, financiado pelo
governo federal. Ele é composto por três fases. Com dois meses, os cães são
entregues a famílias cadastradas no sistema e ficam sob esse cuidado por um ano
ou até 15 meses. Todas as despesas com alimentação e medicina veterinária são
de responsabilidade do projeto, bem como visitas semanais de colaboradores do
Instituto. Quando retornam, eles são treinados por um período que varia de
quatro a seis meses e depois são entregues a uma pessoa com deficiência visual,
em um novo ciclo de adaptação que dura um mês. Recebem o animal treinado
pessoas que se cadastraram em um registro nacional de pessoas com deficiência
visual.
Na
primeira turma do IFC-Camboriú, 40 cães-guia receberam socialização e
treinamento, e 16 deles foram entregues de maneira definitiva a pessoas com
deficiência visual. Segundo Carlos Eduardo Rebello, um dos coordenadores do
projeto em Santa Catarina, a média registrada até o momento é um pouco acima da
global, que é de 30%. Até o momento, dois projetos regulamentados pelo governo
federal funcionam no país: o de SC e o de Alegrete, no Rio Grande do Sul. Está
em fase final de implementação o campus Urutaí, em Goiás.
Apaixonada
por cachorros, Daiane entrou no projeto após encontrar um cão-guia e seu dono
na rua. Ele lhe explicou sobre o projeto e as vantagens que a ajuda do cão
proporcionam. Dados do IBGE revelam que 6,2% da população brasileira tem algum
tipo de deficiência. Dentre os tipos, a visual é a mais representativa e atinge
mais de 3% (6,5 milhões de pessoas), sendo mais comum entre as pessoas com mais
de 60 anos (11,5%). Segundo números do Censo 2010, são 582 mil pessoas cegas e
seis milhões com baixa visão.
Outro
lado
Em
nota, o Condor informou que se tratou de um mal-entendido pelo fato de o cão
não estar acompanhado de uma pessoa com deficiência visual. A rede afirmou que,
se identificados, os animais têm acesso livre aos estabelecimentos. Confira
abaixo a nota do Condor na íntegra:
“O Condor
Super Center destaca que sempre prima pelo bem estar dos seus clientes e, em
relação ao ocorrido, a rede esclarece que se tratou de mero mal entendido, pois
o cão guia estava desacompanhado de pessoa portadora de deficiência e, que no
momento, se desconhecia que o cão estaria em treinamento. Os cães guias têm
acesso livre aos estabelecimentos da rede, desde que devidamente
identificados.”